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A SAÚDE
NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
2ª METADE DO SÉCULO XIX No começo do século XIX a medicina era primitiva e deficiente; exercida por físicos e cirurgiões que desconheciam a Anatomia e a Fisiologia, utilizava-se a medicina prática; com raras exceções de médicos que tinham ido estudar na Europa. Em Portugal, havia apenas a Universidade de Coimbra, com um curso de quatro anos, dado no Hospital São José de Lisboa, onde fazia-se a arte de curar as enfermidades humanas. A ciência era exercida em diversos graus, seguindo uma hierarquia:
( Mitchell,1963:18 ) A fiscalização era feita, pela Real Junta de Proto Medicato, que era dividida em categorias. Cabia ao físico-mór do Reino e escrivão, fiscalizar os médicos físicos, boticários e curandeiros; e ao cirurgião-mór do Reino, os médicos cirurgiões, sangradores e parteiras, como também, a responsabilidade de administrar os exames de cirurgia, para aqueles que apresentassem um atestado de aptidão para o exercício da função, passado por um cirurgião provando ter o exercício clínico prático . O cirurgião trabalhava com um auxiliar, cuja idade variava de 13 a 18 anos, que podia ser analfabeto ou não, ele passava a morar e a aprender com o mestre; esse era o cirurgião do futuro. Com o passar do tempo e um atestado de aptidão, passado pelo cirurgião com o qual trabalhava, o auxiliar prestava exames junto ao cirurgião-mór e onde invariavelmente recebia uma Carta de Aptidão, que o credenciava ao exercício da função. Em menor número, haviam os cirurgiões de hospital, chamados de cirurgiões formados; esses faziam um curso de medicina na Europa de cinco ou seis anos, com cinco eram aprovados e com seis eram considerados formados. Outra classe era a dos cirurgiões barbeiros, que só podiam sangrar, sarjar e aplicar ventosas, clister etc..., desde que autorizados por um cirurgião aprovado. A obstetrícia não podia ser exercida pelos homens, pois os pais e maridos não admitiam o exame, esta função era realizada pelas parteiras ou pelas comadres, também chamadas de aparadoras de anjos . Havia uma grande quantidade de curandeiros, de cujas receitas faziam parte urina de homens e de burros, pó de excrementos de cachorro, cabelos queimados, ossos, carnes de sapo, lagartixas, caranguejos, cobra etc... Com a chegada da Corte portuguesa, começa a modificar o quadro da medicina no país, pois acompanhando o Príncipe Regente D. João, chegaram renomados médicos portugueses, formados pela Universidade de Coimbra, entre os quais Manuel Vieira da Silva e José Corrêa Picanço, tendo esse recebido , em fevereiro de 1808, a Carta Régia que o autorizava a criação da primeira escola de medicina do Brasil; a Escola de Anatomia e Cirurgia da Bahia. Seguindo o Príncipe Regente para o Rio de Janeiro, em 27 de fevereiro de 1808, foram nomeados para os cargos de físico-mór e cirurgião mór do reino, respectivamente, e em 13 de novembro de 1808, através de alvará, passou-se a responsabilidade da fiscalização da medicina no Brasil ao cirurgião-mór do Reino, José Corrêa Picanço, função até então exercida pela Real Junta de Proto Medicato, que acabou extinta em 7 de fevereiro de 1809.
O Príncipe Regente, em 5 de novembro de 1808, através de Carta Régia, autorizou instituir no Hospital Real Militar da Corte, a Escola de Anatomia, Cirurgia e Medicina, a primeira escola de medicina do Rio de Janeiro.
O Hospital Militar, ficava situado no Morro do Castelo, e foi instalado nas antigas acomodações do Colégio e Convento da Companhia de Jesus, expulsos do Brasil em 1759, tendo a doação do terreno sido anulada; passando para o Hospital Militar em 30 de agosto de 1794. Anteriormente os militares eram tratados no Hospital da Misericórdia, pelos cirurgiões com Carta de Aptidão. Até a chegada de D. João, poucos médicos formados exerciam a clínica militar ou civil, esses eram assalariados das Santas Casas ou dos Partidos da Câmara. A instalação da Escola de Anatomia, Cirurgia e Medicina, no Hospital Militar, deve-se ao Frei Custódio de Oliveira, que chegou ao Brasil, acompanhando D. João e foi nomeado cirurgião-mór do Exército e da Armada e Inspetor do Hospital Militar. Frei Custódio ao chegar ao Brasil, encontrou apenas duas escolas públicas, porém como um homem interessado em ciências, mesmo enfrentando os preconceitos dos médicos físicos, pois que era médico cirurgião, portanto, inferior na hierarquia médica, consegue fundar a escola de medicina, em 2 de abril de 1808, e estabelece-la no Hospital Militar, em 22 de setembro de 1809 .
Plano de Estudos da Escola de Anatomia, Cirurgia e
Medicina, em 01.04.1813.
Primeiro ano - Anatomia e Fisiologia - Dr. Joaquim da Rocha Mazerem
O trabalho desenvolvido pelas Academias de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, foi melhorando o estudo e o exercício da medicina , e em 9 de julho de 1826, foi dado o direito as Escolas de Medicina de conferir o título de médico e cirurgião aos seus alunos, função que era exercida pelo físico-mor e pelo cirurgião-mór desde 13 de novembro de 1808, acabando as facilidades até então conseguidas com subornos ou tráfego de influência para o acesso à carreira, começando uma fase de valorização do diploma e da profissão. A Sociedade de Medicina, fundada em 30 de junho de 1829, em 8 de outubro de 1830, reúne-se para a reformulação do ensino médico, encaminhando no início de 1831, o pedido a Assembléia Legislativa, que transformou em Lei a 3 de outubro de 1832, e dentro da reforma mudou-se o nome das Academias Médico-Cirúrgicas, para Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia e a Sociedade de Medicina passou a chamar-se Academia Imperial de Medicina . EPIDEMIAS E MORTALIDADE. O século XIX, de maior crescimento urbano, foi também o século das grandes epidemias, pelo fato da cidade não estar preparada para receber os contingentes populacionais. Assim a decantada beleza paisagística da cidade, ficou manchada com a fama de porto sujo, o que afastava dos portos da cidade, as embarcações estrangeiras. As doenças mais encontradas, decorrentes do clima insalubre, do calor e dos aguaceiros, segundo o médico João Emmanuel Pohl, que acompanhou a comitiva da Princesa Leopoldina ao Brasil, eram: as dores de cabeça, as inflamações de fígado, ouvidos e cérebro , insolação, predominando as doenças de febre, prisão de ventre, ataque de fígado, hemorróidas; quanto aos negros, esses tinham com frequência elefantíase e tétano e os brancos hidrocele que era tratada com compressas de salitre e amoníaco .
“Em 1843 mantinha o Rio muitos aspectos de atrasada
cidade colonial: a
limpeza pública não se fazia diariamente; a iluminação era constituída por pequenas e escassas lâmpadas de azeite de peixe; os meios de locomoção limitavam-se a poucos carros, aos ônibus de tração animal e ao cavalo ... A iluminação a gás, no perímetro urbano, data de 25 de março de 1854.” ( Apud CARVALHO, Carlos Delgado )
A saúde é um fato ligado diretamente ao problema de higiene, e no Rio de Janeiro a falta de saneamento básico e a má qualidade da habitação, fizeram a cidade, que já era insalubre desde o tempo dos vice-reis, ficasse mais vulnerável aos surtos epidêmicos. A transição da primeira para a segunda metade do século XIX, veio caracterizada por uma série de obras de emergência, advindas da chegada da Corte portuguesa, conforme vimos no capítulo anterior, os melhoramentos não foram suficientes para evitar a promiscuidade urbana de uma cidade já consolidada como sede e grande centro comercial do Império. Esta promiscuidade era formada por um grande contingente flutuante de livres, libertos e escravos de ganho ( escravos que trabalhavam em serviços diversos, entregando a renda apurada para os seus proprietários ), que perambulavam e residiam nos limites da área central, os serviços desses escravos eram desqualificados e braçais, colocados à venda no mercado formal e ambulante, em diárias incertas, gastas em alimentos nos armazéns no centro da cidade e em quartos de cortiços, na mesma área onde se localizavam os quarteirões centrais da cidade, recortados com ruas estreitas e congestionadas, onde misturavam-se oficinas, fábricas, casas de cômodo, cortiços, estalagens e hospedarias. Nessa hospedavam-se a maior parte dos que trabalhavam e dos estrangeiros de passagem pela cidade, havia também, residências , diversos tipos de comércio, escritório de grandes empresas e bancos; não era sem razão, que vez em quando mortíferas epidemias como febre amarela, varíola e cólera morbo assolavam estes quarteirões. FEBRE AMARELA
A primeira grande epidemia que assolou o Rio de Janeiro, foi no período de dezembro de 1849 a setembro de 1850.
“ Numa população de 166.000 habitantes a doença
causou, segundo as
estimativas do médico Pereira Rego, 90.658 amarelentos e 4.160 mortos, no auge, que começou com os meses “calmosos” de janeiro, fevereiro e março, fez de 80 / 90 vítimas por dia.” ( Benchimol, 1992:113 )
A epidemia foi trazida para a cidade, em 3 de dezembro de 1849, quando atracou no porto do Rio de Janeiro, o vapor americano Navarro, vindo de Salvador, onde grassava um grande surto da doença. Ao chegar ao porto da cidade a tripulação já estava contaminada, e o seu proprietário assustado, vendeu o navio e seus tripulantes foram dispensados, hospedando-se em estabelecimentos no centro da cidade ( Rua da Misericórdia ), vizinhanças dos Mineiros e do Peixe e para os lados da Prainha e da Saúde . O médico alemão Beltoldo Lallement, que diagnosticou a doença no navio declarou que a febre não atingia a raça negra, mas vitimava a raça mista e dizimava os brasileiros de origem européia, sobretudo os estrangeiros. VARÍOLA Em julho de 1798, logo após Edward Jenner, ter anunciado a conclusão dos estudos sobre a vacina anti-variólica, ela já era introduzida no Rio de Janeiro, pelo cirurgião militar português Francisco Mendes Ribeiro, porém apesar da reconhecida eficiência da vacina, o processo de vacinação foi negligenciado e por fim interrompido. Em 1811, o Príncipe Regente D. João, formou a Junta Vacínica, com o objetivo de reativar a vacinação, sendo vacinados entre 1811/1835, 102.719 pessoas. Em 1846, o Instituto Vacínico Municipal, vem substituir a Junta Vacínica, com as mesmas funções, afim de reativar a vacinação anti-variólica; porém os resultados são os mesmos, devido a falta de informação do povo sobre as doenças infecto contagiosas, o que resultou da resistência do povo contra a vacina, assim como também a falta da obrigatoriedade de vacinação, que só seria efetivada, em 1904, com Oswaldo Cruz . Em 1882, um novo surto de varíola invade a cidade e o governo instala o hospital Santa Bárbara, em um prédio da ilha do mesmo nome, para atender exclusivamente os portadores do mal; a administração deste hospital foi entregue a Santa Casa da Misericórdia, e tão logo passa o surto da doença, o Hospital dos Bexiguentos, como era chamado pela população, é desativado, por causa das péssimas instalações, que eram provisórias. A varíola se fez mais presente no Rio de Janeiro, a partir de 1850, devido a grande quantidade de imigrantes, que chegavam para trabalhar nas lavouras de café . CÓLERA MORBO Em julho de 1855, um intenso surto de cólera morbo tomou conta da cidade do Rio de Janeiro, e após dois meses a situação fica calamitosa, devastando a população, superlotando isolamentos e cemitérios. A doença havia chegado ao porto do Rio de Janeiro, no dia 18, quando o navio Imperatriz, aportara com passageiros e tripulantes contaminados pela doença; para atendê-los o governo adquiriu um prédio em Jurujuba, num sítio chamado Várzea, nascendo aí o Lazareto da Várzea, que após uma década de serviços prestados, junto com o Sanatório Jurujuba, foi cedido ao Serviço de Saúde do Exército para receber combatentes da Guerra do Paraguai, no tratamento de doenças infecto-contagiosas. Atendendo a sugestão da Junta de Higiene, o governo organizou o Lazareto Flutuante, em 1876; um navio especialmente adaptado, com acomodações e instalações necessárias ao isolamento de passageiros vindos de portos suspeitos ( africanos e asiáticos ). Essee navio ficava fundeado a 600 metros do Hospital Marítimo Santa Isabel, e tão logo ficasse constatada a doença, o passageiro era transferido para o hospital de isolamento. A Europa e a Ásia , em 1886, passavam por um grande surto de cólera, e o governo para prevenir-se, adquiriu a Fazenda dos Dois Rios, na enseada do Abrahão, na Ilha Grande, e adaptou as suas dependências, construindo pavilhões e suprindo todas as necessidades para um hospital de isolamento, nascendo assim o Lazareto da Ilha Grande . A eclosão da primeira grande epidemia de febre amarela do Rio de Janeiro, a inoperância da Câmara Municipal e a ineficiência dos médicos tradicionais, incitou a criação em 5 de fevereiro de 1850 da Comissão Central de Saúde Pública, composta por membros da Academia Imperial de Medicina, da Faculdade de Medicina e da própria Câmara, que com um plano de supervisão em áreas e em indivíduos contaminados, acabou controlando a doença, e presunçosamente a considerou extinta em setembro de 1850. Nascia uma nova prática na medicina brasileira, a medicina preventiva. Para a execução da medicina preventiva, criou-se a Junta Central de Higiene Pública, em setembro de 1851, incorporando-se a estes estudos novos elementos, como o contexto urbano, devido a grande concentração de pessoas, o saneamento básico para atender a esta população, a geografia e a economia local, responsável não só pela degeneração da saúde como da moral e bons costumes. Estudou-se primeiro a geografia da cidade, situada em zona tropical, numa planície baixa e pantanosa entre o mar e as montanhas, o que a tornava úmida e calorenta; em segundo viu-se o aspecto urbano da cidade, tendo como alvo principal as habitações coletivas, onde não haviam canos, escoadouros ou latrinas e havia a maior concentração de parte da população .
“Corpos são enterrados nas igrejas
localizadas no centro da cidade:
animais mortos são encontrados nas ruas, por todos os lados existem monturos, cloacas, vasilhas de despejo de urina, currais. Matadouros, açougues, mercados de peixe, armazéns de carne seca, toucinho, queijo, depósitos de azeite de peixe são perigosos, tanto para o ponto de vista da integridade dos alimentos como por serem potenciais corruptores de ar. Fábricas, hospitais e prisões se igualam na ausência de regras higiênicas e disciplinares (...) as ruas são estreita e tortuosas, dificultando a renovação do ar e a circulação dos veículos, além de serem utilizadas como lugares de despejos de lixo. As praias são imundos depósitos de fezes e lixo. As praças são poucas e mal cuidadas, sem árvores, cheias de poças e uma cidade devia ser idêntica à relação do pulmão com o corpo”. ( Benchimol , 1992:11}
A medicina preventiva pregava, devido a tudo que foi explanado, a remodelação da cidade do Rio de Janeiro; os médicos que participavam destes projetos eram considerados médicos higienistas e praticantes da medicina social, pelo fato de terem poder de influência em diversas instituições do Estado, as reformas clamadas pelos médicos higienistas, compreendiam: a expansão urbana da cidade para os bairros mais distantes, a construção de casas higiênicas, o alargamento e aberturas de ruas e praças, a arborização, a instalação de uma rede de esgoto e água, a manutenção e asseio em mercados e matadouros, a criação de lugares próprios para despejos etc... . Evolução da mortalidade no Rio de Janeiro, entre 1850-1870.
“Chama logo atenção a mortalidade em 1850,
comparada à dos anos
anteriores. O brusco aumento deveu-se à epidemia de febre amarela (...). O aumento rápido da entrada de escravos às vésperas da extinção do tráfico, portadores de moléstias como bexigas e desinterias pútridas ( das quais morriam as dezenas ) contribuiu também para aumentar a mortalidade daquele ano. A oscilação da mortalidade entre 1851 e 1854 pode ser atribuída ainda à febre amarela que nunca deixou de agir ( ... ) Em 1855, o Rio de Janeiro foi assolado, pela primeira vez, pela epidemia de cólera-morbo com 4.828 vítimas ( ... ). Tornou a cair o número de óbitos em 1856 ( ... ). A mortalidade manteve sua tendência ascendente entre 1857 e 1860, oscilando anualmente em função da violência da febre amarela. Em 1861 e 1864 a proporção sofreu uma queda, tornando a elevar em 1865, em virtude de uma imensa epidemia de varíola e de outras moléstias decorrentes da aglomeração das tropas com destino ao Paraguai. Depois decresceu até 1869, apesar de , em 1867 a 1868, a cólera-morbo haver grassado novamente. A mortalidade dos escravos, que regula em mais de um terço da dos libertos e livres, tendeu a decrescer sensivelmente nos últimos anos, o que demonstra a forte redução dessa população após a extinção o trafico, visto que era muito reduzido o número de nascimentos. A proporção da mortalidade entre os dois sexos é maior nos homens que nas mulheres, em função da maior imigração de população masculina e da população flutuante típica dos portos comerciais ( ... ).”
Essas idéias emitidas em 1850, cresceram em 1870, tornando-se senso comum nas classes dominantes e nas camadas médias, já formadoras de opinião pública, porém só vieram a serem efetivadas com a reforma de Pereira Passos, em 1903.
As medidas da medicina social , não se limitavam apenas a higienização da sociedade, mas também a normalização da prática médica e a institucionalização das Faculdades de Medicina. LAZARETOS / ENFERMARIAS DE EMERGÊNCIA / HOSPITAIS DE ISOLAMENTO. As primeiras instalações hospitalares para atendimento à saúde publica foram os lazaretos, as enfermarias de emergência e os hospitais de isolamento, decorrente do fato da grande quantidade de enfermos, ocasionados pelas epidemias que assolavam por vezes a cidade. Já em 1810, o Príncipe Regente, dá ordens ao seu físico-mór Vieira da Silva, para a construção do Lazareto de Boa Viagem, onde deveriam ficar de quarentena os navios vindos de portos suspeitos; porém o hospital nunca foi feito e as embarcações ficavam na enseada Boa Viagem, apenas em observação. A 10 de dezembro de 1828, D. Pedro I, acaba com os cargos de Provedor-Mór de Saúde e Cirurgião-Mór e passa a responsabilidade da Saúde Pública para as Câmaras Municipais e para a Superintendência de Saúde Pública, o que pouco ou quase nada adiantou; até que nos últimos meses de 1849, registrou-se no Rio de Janeiro um violento surto de varíola, seguido de uma epidemia de febre amarela e cólera morbo, encontrando a cidade sem hospitais para atender aos pobres ou receber tripulantes e passageiros de navios em quarentena; cerca de dez mil habitantes foram atingidos pela doença, dos quais quatro mil faleceram. Face aos protestos de médicos, jornais, políticos e da população, e diante de uma situação de calamidade pública, o governo criou a Comissão Central de Saúde, presidida pelo sanitarista Dr. Francisco de Paula Cândido, que começou a inaugurar uma série de lazaretos, em 18 de janeiro de 1850, o da Ilha de Bom Jesus, em 1o de março, o do Saco do Alferes, no dia 10 de março, o Hospital N.S. do Livramento, que logo se tornaram insuficientes para o atendimento ao grande número de doentes . A fragata inglesa Apposition, retorna ao porto do Rio de Janeiro, de onde havia partido dias antes, trazendo a bordo quatro doentes de febre amarela; o Dr. Paulo Cândido manda alugar um amplo prédio na enseada de Jurujuba e o transforma em um hospital de isolamento, é o Lazareto de Jurujuba, inaugurado em 20 de janeiro de 1851, para onde foram recolhidos os doentes da fragata inglesa e outros provindos de diversas embarcações; mais tarde, o lazareto recebeu grandes reformas, sendo reinaugurado em 5 de março de 1853, com o nome de Hospital Marítimo Santa Isabel e posteriormente seu nome foi trocado para Hospital Paulo Cândido .
“Prosseguindo no desenvolvimento do plano
traçado a Comissão ( por
decreto de 14 de setembro de 1850 denominada Junta Central de Higiene Pública organiza e promove a rápida aprovação da lei no 583, de 5 de setembro de 1850 que lhe concedia plenos poderes para contratar “com alguma Irmandade, Corporação Civil ou Religiosa, ou empresários, a fundação e administração de cemitérios com encargo de estabelecerem , manterem e conservarem três enfermarias providas de boticas regulares para tratamento e socorro da pobreza efêmera, tanto em tempos ordinários, como em casos de epidemias”. A lei ordenava a desapropriação por utilidade pública de terrenos e edifícios necessários à fundação de cemitérios e enfermarias que o governo autorizasse, devendo o valor da desapropriação ser previamente estabelecido para pronta indenização”. ( Araújo, 1982:22 )
A primeira enfermaria, foi feita na Chácara do Vigário Geral, no Caminho da Copacabana nos 15 e 17, numa propriedade da Santa Casa da Misericórdia, que tinha como provedor José Clemente Pereira. Essa enfermaria atenderia os habitantes de Botafogo e Copacabana; denominada Enfermaria São João Batista, foi inaugurada em 1 de janeiro de 1852, e mais tarde, ao ser ampliada, recebeu o nome de Hospício de São João da Lagoa. A segunda enfermaria foi criada na Casa de Saúde do Dr. Peixoto para atender à população da Gamboa, Saúde, Saco do Alferes, São Diogo e ilhas próximas, onde havia maior o número de doentes e nenhum hospital para atendimento aos pobres, era uma instituição que já prestava serviços à população da Gamboa e arredores, de cujo patrono falaremos mais adiante. O parecer favorável para instalação da enfermaria foi emitido pela Junta de Higiene, em 27 de abril de 1853, para a instalação da enfermaria, que mais tarde se transformaria no Hospital da Gamboa. A terceira enfermaria para atendimento a população pobre da freguesia de São Francisco Xavier do Engenho Velho, foi instalada na Chácara do Morundu, uma grande propriedade da empresa funerária da Santa Casa da Misericórdia, que ia da Praia de São Cristóvão a Rua dos Quartéis ( hoje Rua Bela ), ladeando o Campo Santo da Misericórdia ( hoje local dos cemitérios no Caju ); foi inaugurada em 18 de outubro de 1855, sendo mais tarde, em 1866, transferida para a Rua de São Cristóvão no 95, com o nome de Enfermaria N.S. do Socorro, que após uma grande reforma passou a chamar-se Hospital de N.S. do Socorro. Junto aos lazaretos, enfermarias de emergência e hospitais de isolamento, já anteriormente citados, foi inaugurado em 9 de novembro de 1889, seis dias antes da Proclamação da República, o Hospital de Isolamento de São Sebastião, instalado em uma grande chácara na Rua Retiro Saudoso no 27 ( hoje Rua Carlos Seidl , que foi um ex diretor do hospital ). O hospital tinha 240 leitos, que se tornaram insuficientes, quando em abril de 1841, a cidade sofreu novo surto de varíola e febre amarela, chegando o governo a reabrir o desativado Hospital Paulo Cândido, por mais uma década . OUTRAS INSTALAÇÕES HOSPITALARES. Os surtos de epidemia que atingiram a cidade do Rio de Janeiro, na transição da primeira para a segunda metade do século XIX, encontraram um sistema hospitalar deficiente, mas não inexistente. O atendimento hospitalar era, quase que totalmente, direcionado: as Ordens Terceiras, que somente atendiam a seus associados; o Hospital dos Lázaros aos morféticos; o Hospital do Exército e o da Marinha aos militares da terra e do mar; restando a Santa Casa da Misericórdia, o atendimento ao público; o que faziam com grande deficiência, devido aos problemas de recursos financeiros; seus hospitais eram mal localizados e recebiam popularmente o nome de Câmara da Morte. A municipalidade do Rio de Janeiro não possuía nenhum hospital para atendimento aos pobres da cidade, a não ser o Asilo São Francisco de Assis, que era abrigo para mendigos, doentes e inválidos . As principais instalações hospitalares da cidade eram: SANTA CASA DA MISERICÓRDIA. Em 1838, o provedor da Santa Casa da Misericórdia, José Clemente Pereira, solicitou à Imperial Academia de Medicina , a construção de um novo hospital que seria mais tarde edificado em um amplo terreno, em frente à Praia de Santa Luzia, onde existiam casebres que foram derrubados e o cemitério da Irmandade, que foi transferido para a área do Caju. A pedra fundamental do hospital foi colocada em 2 de julho de 1840; tendo a primeira etapa da construção, durado 12 anos, sendo inaugurado em 2 de julho de 1852; tinha 28 amplas enfermarias com capacidade para 1.105 leitos e dispunha de diversas clínicas médicas e cirúrgicas, uma seção de quarto para pensionistas e um prédio isolado para doenças infecto-contagiosas. As obras do hospital prosseguiram até 1876.
“ O pessoal do hospital era composto de :
um Diretor do Serviço Sanitário,
um vice-diretor, seis médicos internos, trinta internos acadêmicos, dois médicos e cirurgiões-chefes de enfermaria, seis adjuntos e assistentes, trinta irmãs de São Vicente de Paula, auxiliadas por trinta enfermeiros e mais cento e cinqüenta outros empregados: serventes, guardas porteiros, moços de cozinha, copeiros etc.”. ( Araújo.1982.63 )
As irmãs de São Vicente de Paula, vieram da Casa Matriz, em Paris, através de contrato e chegaram ao Rio de Janeiro para prestar serviços no hospital, em 26 de setembro de 1852. Foi o Laboratório de Análises da Santa Casa da Misericórdia, que serviu de base ao Instituto Oswaldo Cruz; e introduziu no Brasil a vacinação anti-rábica, pelo método Louis Pasteur; a Santa Casa também foi o primeiro hospital a ter um serviço especializado de clínica oftalmológico e de atendimento, exclusivo, de clínica médica, cirúrgica e ortopédica infantil; anteriormente o atendimento feito junto com os adultos, separando-se por sexo. HOSPÍCIO DE D. PEDRO II. Até a metade do século XIX, não havia uma política de saúde para deficientes mentais, que andavam perdidos pelas ruas, ou aprisionados em jaulas nas cadeias, nas residências, ou em cubículos nas Ordens Terceiras ou na Santa Casa; apesar das críticas e reclamações de eminentes médicos da corte, como o Dr. Xavier Sigaud. Em 1841, foi feita uma subscrição pública, que destinaria a quantia arrecadada para o Imperador, que dela faria uso para o que desejasse. Entre diversas sugestões apresentadas, tai como: o monumento ao Imperador, a construção de uma Escola de Artes e Ofícios, foi a aceita a de José Clemente Pereira, provedor da Santa Casa da Misericórdia, que oferecia um terreno na Chácara do Vigário Geral, para a construção de um hospital de alienados, e também seria anexo do Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Atendendo aos desejos do Imperador para que o hospital fosse instalado na enseada de Botafogo, foi comprado um sítio na Praia Vermelha, sendo inaugurado em 5 de dezembro de 1852, dez anos após o início da construção, com o nome de Hospício de D. Pedro II . Em 18 de julho de 1841, foi assinado por D.Pedro II, o decreto de n0 82, que criava o Hospital de D. Pedro II; assim redigido
“ Desejando assinalar o austo dia da minha
sagração com a criação de um
estabelecimento de pública beneficência, hei de fundar um hospital destinado privativamente, para o tratamento de alienados, com a denominação de Hospício de D. Pedro II, o qual ficará anexo ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia, desta Corte e debaixo da minha imperial proteção, aplicando desde já para princípio da sua fundação o produto das subscrições promovidas por uma comissão da Praça do Comércio, e pelo Provedor da sobre dita Santa Casa, além das quantias com que eu houver por bem instituir...”. “ Certamente naquele momento era dos melhores hospitais
psiquiátricos do
A importância dada a construção deste hospital, pode ser observada pela escolha do seu primeiro diretor, o professor José Martins da Cruz Jobim, que além de médico da Câmara Imperial, exercia a função de diretor da Faculdade de Medicina. Com acomodação para 350 pacientes, o hospital chegou a acomodar 2.000 doentes; desde a sua inauguração, recebeu também, indigentes pensionistas, dos quais cobrava um pagamento diferenciado dos demais internos, de melhores posses. O tratamento psiquiátrico foi se especializando e evoluindo: em 1845, subvencionado pelo governo, o Dr. Antonio José Pereira Neves foi enviado à Europa para estudar o tratamento de doentes mentais em clínicas especializadas e após uma permanência de três anos, ao retornar, fez um relatório da necessidade de novas medidas a serem adotadas no tratamentos dos alienados; em 1854, o Dr. Manoel José Barbosa introduziu a terapia ocupacional no tratamento psiquiátrico, com a instalação de oficinas de empalhação, sapataria e alfaiataria, mais tarde foi instituída a Cátedra de Psiquiatria e Moléstias Nervosas, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A 11 de novembro de 1890, o Hospício de D. Pedro II, teve o nome trocado para Hospital Nacional de Alienados e foi desanexado da Santa Casa da Misericórdia; sendo construído três pavilhões isolados do corpo central do hospital, para a Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 15 de fevereiro de 1890, foi a criada a Colônia de Alienados da Ilha do Governador. Com o afastamento da Santa Casa da Misericórdia, o hospital entra em decadência, e só no princípio deste século, em 1903, é salvo da falência total, quando teve como diretor o Dr. Juliano Moreira, o grande reformador da psiquiatria brasileira, que fez uma reformulação total no hospital .
“Passou, então, o Hospital Nacional por
transformação total: enfermarias
higiênicas, inclusive para moléstias intercorrentes; pavilhões para doentes em observação; escola BOURNEVILLE; salas para curativos, grandes intervenções cirúrgicas; serviços de sinesoterapia, eletro e balneoterapia; oftalmologia, anatomia patológica e novas oficinas de trabalho para enfermos capazes.’ ( Araujo.1982:68 )
Em 1948, o prédio foi transformado no Palácio da Reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelo Magnífico Reitor Pedro Calmon. ASILO DOS INVÁLIDOS DA PÁTRIA. Em 1794, o vice rei Conde de Rezende, mandou instalar em um prédio de uma chácara na Rua do Senado ( hoje Rua dos Inválidos ), a primeira instituição destinada a assistir soldados reformados por invalidez ou incapacitados para os serviços ativos nas Forças Armadas; o Príncipe Regente D. João, em 20 de junho de 1816, incorpora o prédio aos próprios do governo e manda reconstruir o prédio, doando-o ao seu médico particular Dr. Manuel Vieira da Silva, para ser a sua residência. Em 1841, o Poder Legislativo autorizou a criação de um novo Asilo de Inválidos para membros do exército brasileiro que estivessem incapacitados por ferimentos ou moléstias, adquiridos no exercício da função; no período de 1816 a 1841, não há registro do que teria acontecido ao antigo Asilo dos Inválidos. Em 6 de maio de 1843, através de decreto, foi estendido aos membros da Marinha de Guerra; porém o que se fez foi instalar uma Companhia de Inválidos no Forte de São João . Somente com a Guerra do Paraguai, a idéia toma força e é organizada pela Praça de Comércio do Rio de Janeiro, uma associação com o nome de Sociedade do Asilo de Inválidos da Pátria, sendo nomeado como diretor José Joaquim de Lima e Silva, Visconde de Tocantins, irmão do Duque de Caxias, tendo o Imperador como patrono, sendo feita uma subscrição pública para arrecadação de fundos para a construção do Asilo. O local escolhido para o Asilo, foi a Ilha de Bom Jesus, na Baía de Guanabara, em frente ao litoral da Freguesia de Inhaúma, em um terreno que tinha uma parte pertencente a Ordem dos Franciscanos, que ali construíram um convento.No início da Guerra do Paraguai, esse convento havia sido requisitado pelo Ministério da Guerra para aquartelar as unidades dos Voluntários da Pátria, antes de seguirem para a guerra; quando em 1866 foi instalada uma enfermaria militar para receber doentes crônicos, os inválidos da Fortaleza de São João e feridos da Guerra do Paraguai; enquanto se processavam as obras, iniciadas em 1867, foi instalado um asilo provisório no Quartel da Ponta da Armação, onde eram recolhidos os deficientes físicos que chegavam da guerra. O asilo foi inaugurado, em 15 de outubro de 1869, recebendo o nome de Asilo dos Voluntários da Pátria . IMPERIAL INSTITUTO DE MENINOS CEGOS. O Dr. José Francisco Xavier Sigaud, famoso médico do Império, tinha uma filha cega, e quando chega a Corte, em 1853, José Alves de Azevedo, um ex aluno do Institution Impereale des Jeunes Aveugles de Paris, uma instituição especializada na educação de cegos, Dr. Sigaud o contrata para ensinar a ler e instruir a sua filha, seguindo os métodos da escola de Paris. O progresso da menina com aprendizagem pelo método parisiense, faz com que seja levada, junto com o professor, à presença do Ministro do Império, Dr. Luis do Couto Ferraz, futuro Barão do Bom Retiro, pedindo para que fosse solicitado ao Imperador a criação de um educandário especializado na educação dos cegos . Criado pelo decreto no 1428, de 12 de setembro de 1854, o educandário foi inaugurado no mesmo mês e ano, na Chácara dos Coqueiros, à rua do Lazareto da Gamboa no 3, no Morro da Saúde, com a presença do Imperador; mais tarde sob a direção do General Benjamin Constant, foi feita uma grande reorganização e em 1880, foi construído um grande prédio com excelentes acomodações na antiga Praia Vermelha, hoje conhecido como Instituto Benjamin Constant, na Avenida Pasteur, em homenagem ao ex diretor .
INSTITUTO DE SURDOS E MUDOS. Em 1855, nas dependências do Colégio Vassimon, na rua Municipal no 8, atual Mayrink Veiga, foi criada a Escola de Surdos. Em 1856, já com o nome de Instituto Imperial de Surdos-Mudos, foi transferido para a ladeira do Livramento, onde era administrada gratuitamente a instrução a surdos-mudos, e em 1873 foram introduzidos os estudos de matemática, de geografia, de história do Brasil e de desenho no currículo; assim como passaram a aceitar matrícula de alunos contribuintes. Até 1881, o ensino era exclusivamente para o sexo masculino, porém quando o instituto foi transferido para o prédio próprio, na rua das Laranjeiras no 230, foi possível a entrada de mulheres e, posteriormente, pode internar alunos de ambos os sexos, ampliar o currículo escolar, ministrando ensino técnico, educação física e desportiva .
APARECIMENTO DAS CASAS DE SAÚDE. Na segunda metade do século XIX, o progresso na área da saúde com a inauguração dos dois grandes hospitais; o atual Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia e o Hospício de D. Pedro II, fez nascer uma geração de médicos ilustres que ali trabalhavam; curando ou ensinando a curar, fazendo um trabalho com reconhecimento em termos nacionais e internacionais. Porém, apesar do reconhecido progresso alcançado na assistência hospitalar do Rio de Janeiro, o povo ainda permanecia com o mesmo temor de outrora, quando o alto índice de mortalidade hospitalar assustava os pacientes que procuravam o socorro médico, mesmo que a aparência da arquitetura hospitalar melhorasse, a verdade é que a mortalidade hospitalar continuava com um índice elevado. As cirurgias já não eram realizadas como anteriormente, apressadas e traumáticas; em 16 de outubro de 1846, o dentista norte-americano William Thomas Green Morton, introduziu a prática de anestesia geral, por meio de inalação de éter silfúrico, na cirurgia. No Brasil, a cirurgia com anestesia foi realizada pela primeira vez no Hospital Militar da Corte, em 1 de julho de 1847, e já em fevereiro de 1849, no Hospital da Santa Casa da Misericórdia, foi realizada a primeira operação utilizando a anestesia geral com inalação de clorofórmio. As dores da cirurgia passaram, mas a maior causa da mortalidade hospitalar, a contaminação pelas mãos dos médicos cirurgiões e pelos instrumentos cirúrgicos, continuavam, pois ainda não era conhecido o mundo dos microorganismos, apesar dos estudos dos médicos, o húngaro Inaz Philip Semmelweis e o francês Louis Pasteur. Apenas em 1867, o médico inglês Joseph Lister, comunicou a Associação Médica Britânica a sua publicação “O Princípio da Antissepcia”, pedra fundamental da cirurgia antisséptica; a revolução na história da cirurgia . A rejeição aos hospitais pela maior parte da população do Rio de Janeiro, não se resumia somente a mortalidade hospitalar, como também a parte sentimental, que levava as pessoas a negar internação de seus parentes, quando doentes ou acidentados, para não afastá-los do convívio da família, tendo por isto, tornado-se habitual o atendimento médico ou cirúrgico nas residências do doente ou no consultório médico, até mesmo cirurgias de grande vulto; esse procedimento fez com que a maior parte do atendimento médico hospitalar do Rio de Janeiro, fosse feito a escravos, a indigentes, a viajantes e a amparados pelas Ordens Terceiras. Os jornais da época, no final da primeira metade do século XIX, para burlar a Lei Municipal que proibia as intervenções cirúrgicas em domicílios residências, faziam anúncios oferecendo “Gabinetes Cirúrgicos” ou “Casa de Saúde”, para atendimentos médicos-cirúrgicos, que na realidade eram a residência de médicos, geralmente estrangeiros ou brasileiro com estágios no exterior, que faziam da sua moradia, local de atendimento; acrescentando na propaganda “A casa possui instalações para acompanhantes e criados de confiança”; o que aumentava a lucratividade da atividade; nascia assim o embrião das futuras Casas de Saúde . A partir do final da primeira metade do século XIX, começam a surgir as primeiras Casas de Saúde no Rio de Janeiro, já legalizadas; o sucesso desse tipo de empreendimento é tanto, que na segunda metade do século há uma proliferação desses estabelecimentos hospitalares, dos quais falaremos apenas das Casas de Saúde que tiveram a sua história entrelaçada com a história da Casa de Saúde Dr. Eiras, razão da monografia ora apresentada.
CASA DE SAÚDE DO DR. PEIXOTO. A Casa de Saúde do Dr. Peixoto, foi a primeira casa de saúde do Rio de Janeiro e do país. Tudo começou quando o Dr. Antônio José Peixoto, formado em cirurgia e medicina pelas Faculdades de Montpellier e Paris, enviou uma representação ao Governo Imperial, em 8 de agosto de 1840, solicitando apoio financeiro para a instalação de um estabelecimento hospitalar aos molde da Maison Royale de Santé de Paris. Aqui ela teria o nome de Imperial Casa de Saúde e Instituto Ginástico Ortopédico, no qual seriam ministrados cursos de Patologia externa, Medicina Operatória e Cirurgia Ortopédicas. O contrato previa, entre outras coisas, o primeiro ginásio para exercícios de reabilitação ortopédica e um anfiteatro para ministrar aulas para cinqüenta alunos . A representação foi levada à Imperial Academia de Medicina, órgão consultivo do governo, que na sua 62a sessão, em 12 de novembro de 1840, formou uma comissão para estudar o pedido e na 67a sessão, em abril de 1841, apresentou o seu parecer, negando a pretensão do Dr. Peixoto, com argumentos variados como: o do Dr. Peixoto não ser professor de faculdade, que a cátedra de Cirurgia Ortopédica poderia fazer parte do currículo da Faculdade de Medicina; que os exercícios de reabilitação poderiam ser realizados no ginásio do Colégio Pedro II; simplesmente por problemas de ordem financeiras etc. A recusa na realidade escondia, uma série de preconceitos de integrantes da Comissão pelo Dr. Peixoto, por ser este um médico que havia conquistado uma imensa clientela e fama de médico operador, desde 1837, porque operara de litotricia ( cálculos renais ) com sucesso, o Marques de Barbacena, figura proeminente do Império, que tinha sido aconselhado a operar em Paris . Em meados de 1841, com registro de Estabelecimento de Saúde no Alto do Morro do Cal, com entrada pela Rua da Gamboa no 159, tem início a Casa de Saúde do Dr. Peixoto, que além de ser a primeira Casa de Saúde do país, foi também pioneira no serviço ortopédico. A Casa de Saúde do Dr. Peixoto, estava instalada em um amplo prédio e vários anexos, no Morro da Gamboa, com frente para a praia da Gamboa; ocupando dois prédios com várias dependências, também era a residência do proprietário; apesar das acomodações da Casa de Saúde e da fama de médico cirurgião que tinha o Dr. Peixoto, a clientela solicitava o seu atendimento no seu consultório ou no próprio domicílio. Em 15 de setembro de 1852, devido a melhoramentos e a capacidade de suas instalações, por decisão do contra-almirante Dessouin, comandante em chefe da Estação Naval Francesa no Brasil, passou a usar o título de Maison de Santé de la Marine Française Em 1853, a Casa de Saúde do Dr. Peixoto, foi requisitada pela Junta Central de Saúde, para ser a segunda enfermaria de emergência para atendimento dos contaminados de epidemias que assolavam a cidade, tendo o seu nome mudado para Enfermaria N.S. da Saúde, e em 1857 passou a chamar-se Hospício de N.S. da Saúde.
BIBLIOGRAFIA ARAUJO,Achilles Ribeiro. Assistência Hospitalar no Rio de Janeiro no Século XIX. Rio de Janeiro Ministério da Educação e Cultura. Conselho Federal de Cultura. 1982 MITCHELL, Gilberto de Medeiros. História do Serviço de Saúde do Exército.Rio de Janeiro. Escola de Saúde do Exército.1963 CASA DE SAÚDE DR. EIRAS S.A. Divisão de Serviços Médicos. Manual Geral de Atribuições. Rio de Janeiro:s/e. 1975 FOLHETO MÉDICO:Cedido pelo Dr. Heyder Gomes de Mattos MADALENA,José caruso. Pesquisas Condensadas. Rio de Janeiro. 1992, |